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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

CABOCLO PENA BRANCA

Cacique Pena Branca nasceu em aproximadamente 1425, na região central do Brasil, hoje, entre Brasília e Goiás, onde seu pai era o Cacique da tribo. Era o filho mais velho de seus pais e desde cedo se mostrou com um diferencial entre os outros índios da mesma tribo, era de uma extraordinária inteligência. Na época não havia o costume de fazer intercâmbios e trocas de alimentos entre tribos, apenas algumas faziam isto, pois havia uma cultura de subsistência, mas o Cacique Pena Branca foi um dos primeiros a incentivar a melhora de condições das tribos, e por isso assumiu a tarefa de fazer intercâmbios com outras tribos, entre elas a Jê ou Tapuia, e Nuaruaque ou Caríba. Quando fazia uma de suas peregrinações ele conheceu na região do nordeste brasileiro (hoje Bahia), uma índia que viria a ser a sua mulher, chamava-se "Flor da Manhã" a qual foi sempre o seu apoio. Como cacique, foi respeitado pela sua tribo de Tupis, assim como por todas as outras tribos e continuou, apesar disso, seu trabalho de itinerante por todo o Brasil na tentativa de fortalecer e unir a cultura indígena.
Pena Branca era um dos índios que estavam em cima do Monte Pascoal, na Bahia, e foi um dos primeiros a avistar a chegada dos portugueses nas suas naus, com grandes cruzes vermelhas no leme.
Esteve presente na 1ª missa realizada no Brasil pelos jesuítas, na figura de Frei Henrique de Coimbra. Desde então procurou ser o porta-voz entre índios e os portugueses, sendo precavido pela desconfiança das intenções daqueles homens brancos que ofereciam objetos, como espelhos e pentes, para agradá-los. Aprendeu rapidamente o português e a cultura cristã com os jesuítas. Teve grande contato com os corsários franceses que conseguiram penetrar (sem o conhecimento dos portugueses) na costa brasileira - muito antes das grandes invasões de 1555 - aprendeu também a falar o francês.
Os escambos, comércio de pau-brasil entre índios e portugueses, eram vistos com reservas por Pena Branca, pois ali começaram as épocas de escravidão indígena e a intenção de Pena Branca sempre foi a de progredir culturalmente com a chegada desses novos povos, aos quais ele chamava de amigos. Morreu com 104 anos de idade, em 1529, o Cacique Pena Branca, deixando grande saudade em todos os índios do Brasil, sendo reconhecido na espiritualidade como servidor na assistência aos índios brasileiros, junto com outros espíritos, como o Cacique Cobra Coral.
Apesar de não ter conhecido o Padre José de Anchieta em vida, já que este chegou ao Brasil em meados de 1554, Pena Branca foi um dos espíritos que ajudou este abnegado jesuíta no seu desligamento desencarnatório.

Um guia sem fronteiras
Por Ras Adeagbo.
Em 1929, o poderoso cacique Pena Branca, líder dos índios Yaqui do México, liderou uma  revolta contra a opressão e a injustiça que vitimavam o seu povo.  Desde este momento, nas terras americanas, o mito desta grande entidade nasceu.  Pena Branca é hoje um símbolo de liberdade, autenticidade e fraternidade.
Entrando em contato com muitos irmãos de cultos afro-indígenas do México, Caribe e Estados Unidos, fiz esta pergunta a mim mesmo : - Será nosso Caboclo Pena Branca, esta mesma entidade ou um representante dela?  
Certa vez, perguntei ao irmão Alberto Salinas, curandeiro e médium de uma tradição espiritualista mexicana, quais as principais entidades que incorporavam em seu templo. O primeiro nome que ouvi foi : Pena Branca.  Em seguida, comentei que no Brasil, também incorporava um índio do mesmo nome.  Ele não se surpreendeu e disse que outros “penas” também frequentavam sua sessão de cura, nada impedindo que fossem as mesmas entidades. 
Longe dali, no Caribe, existe uma religião chamada de Vinte e Uma Divisões (ou Vinte e Uma Linhas) que é muito parecida com a nossa amada Umbanda.  Nos terreiros deste culto, trabalham destemidos espíritos de índios, pretos velhos, exus (ali chamados de candelos) e outros espíritos familiares.  Na Linha de Índio Bravo, uma das Vinte e Uma Linhas, encontramos também nosso velho amigo : Pena Branca !
Ali ele baixa, firme e elegante, dando brados e vivas imponentes.  Com ele, também incorporam Águia Branca, Índio da Paz e outros “penas” :  Pena Azul, Pena Negra, Pena Amarela, etc…    Coincidência ?
Nos estados sulistas dos Estados Unidos, existem algumas igrejas espíritas…. Coisa bem diferente, pois por fora parece um templo evangélico e por dentro um terreiro.  Os pastores são médiuns e bem íntimos com as manifestações do Mundo Invisível.
O espírito principal que chefia estas igrejas, as vezes chamadas de Igrejas Espiritualistas Africanas, é o Chefe Índio Falcão Negro. 
Quando o Chefe Falcão se manifesta, ele puxa outros companheiros das aldeias do astral, como Nuvem Vermelha, Águia Negra (nomes de chefes indígenas que existiram) e entre eles está : Pena Branca !  Mais coincidência ?
Algumas fraternidades esotéricas americanas, que cultuam os Mestres Ascencionados como Saint Germain, El Morya e outros bem conhecidos da Nova Era, conhecem um belo Mestre curador.  Ele aparece como um índio banhado em branca e luminosa luz, dando sábios conselhos e mensagens (veja uma imagem dele aqui reproduzida).  Seu nome ?  Mestre Pena Branca.  Olha ele aqui de novo….
Em algumas ilhas do Caribe existe um culto chamado Obeah, de origem africana.  Dentro dele são celebrados os mistérios dos espíritos de origem indígena taino, etnia local.  Existem muitas entidades indígenas, a maioria com comportamento muito arredio e nomes de animais, como Cobra Verde, Pantera Negra, Jaguar Dourado e etc…
Quando incorpora a Falange do Povo Alado, simbolizada pelos pássaros e morcegos, um deles tem um destaque especial.  Este espírito se apresenta sério, compenetrado, usa tabaco fortíssimo e uma pena branca na cabeça.  Como é chamado ?  Índio Pena Branca.  Pois então, novamente o encontramos.
Na Venezuela existe um culto belíssimo, semelhante em tudo com a Umbanda de nossa terra. Tem caboclo, preto velho, exu, marinheiro, Orixás e tudo de bom.  É a tradição de Maria Lionza, a Rainha Mãe da Natureza. 
Na Linha Índia, comandada pelo famoso espírito do Cacique Gaicaipuro, incorporam centenas de caboclos venezuelanos e americanos.  Eles trabalham com pemba, bebidas diversas, água, cocares, maracás e todo o aparato ameríndio.  Chegam bradando e saudando o povo, que procura semanalmente os irmandades em busca de alívio, socorro material e espiritual.
Certo dia em Bonaire, uma ilhazinha perto da Venezuela, eu participava de um culto de Lionza.  Perto do congá, estava um rapaz incorporado com um caboclo. Atento, o índio ouvia pacientemente uma velha senhora e a limpava com um maço de ervas perfumadas.  A senhora chorava muito e tremia.  No final da sessão, o semblante dela havia mudado.  Feliz, ela sentou-se no banco da assistência e orava agradecida.
Curioso, eu me aproximei e perguntei o nome da entidade que a atendeu.  A velha irmã respondeu com reverência.  Adivinhem o nome do caboclo.  Ele mesmo, o grande índio Pena Branca !
O tempo passou e a pergunta ainda batia dentro da minha cabeça. Será que é o mesmo Pena Branca ?  Terá este caboclo conhecido da Umbanda viajado tanto assim ?  Afinal, ele é mexicano, americano ou brasileiro ?   Quem, afinal, nasceu primeiro, o Pena Branca daqui ou de lá ?  Inquietações de um pesquisador, pois os afilhados e médiuns de Pena Branca não ficam, creio eu, tão preocupados com a sua origem.
Uma bela noite, em um modesto e tranquilo terreiro umbandista do interior paulista, acontecia uma gira de caboclo.
A líder do terreiro abriu o trabalho e incorporou. Seu Pena Branca estava em terra, em todo o seu esplendor e força.
Fiquei atento, lembrei-me do Caribe e pensava em tudo isso que agora escrevo aqui. 
O caboclo Pena Branca riscou seu ponto, pediu um charuto, deu algumas ordens ao cambono e olhou para onde eu estava.  Senti uma estranha energia percorrer minha espinha.  Ele continuou olhando e acenou.  Me levantei e acenei de volta.
Foi então que ele falou : 
- Filho, era eu, lembra? Tem um maço de ervas bem cheiroso para mim?
Salve Seu Pena Branca ! 
 
BANHO DE PROTEÇÃO PENA BRANCA (utilizado no Caribe)
4 litros de água,
Um pouco de erva cidreira,
Um pouco alfavaca,
Algumas pétalas de rosa branca.
Ferver as ervas, esperar esfriar um pouco e acrescentar as pétalas.
Acender uma vela verde antes do banho.
 
ÁGUA DE PENA BRANCA PARA PURIFICAR A RESIDÊNCIA (receita da Obeah).
1 litro de água mineral,
Um pouco de erva cidreira,
Um pouco de arruda,
Um pouco de verbena,
Sete gotas de essência de almíscar.
Misturar as ervas e ferver.  Deixar esfriar e adicionar a essência.
Acender uma vela verde e pedir a Pena Branca para benzer a água.
Depois que a vela acabar, borrifar os cantos da casa, cama e objetos pessoais.

Ahow!! Salve Oxalá! Salve Oxóssi, Rei da Mata! Salve os Caboclos Flecheiros! Salve Seu Pena Branca!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A LENDA DO PEQUI, VERSÃO KARAJÁ

Tainá-racan tinha os olhos cor de noite estrelada. Seus cabelos desciam pelas espáduas com um tufo de seda negra. O andar era elegante, cadenciado, macio como o de uma Deusa passeando, flor entre flores, no seio da mata. Maluá botou os olhos em Tainá-racan e o coração saltou, louco e fogoso, no peito do jovem e formoso guerreiro. "Ela é mesmo linda como a estrela da manhã. Quero-a para minha esposa. Hei de amá-la enquanto durar a minha vida!"

Doce foi o encontro e, juntos e casados, a vida dos dois era bela e alegre com o ipê florido. De madrugada, Maulá saía para a caça e para a pesca, enquanto a esposa tecia os colares, as esteiras, moqueava o peixe, preparando o calugi para ofertar ao amado, quando ele chegasse com o cesto às costas, carregado de peixe e frutas, as mais viçosas, para oferecer-lhe.

O tempo foi passando, passando. No enlevo do amor, eles não perceberam quantas vezes a lua viajou pela arcada azul do céu, quantas vezes o sol veio e se escondeu na sua casa do horizonte. Floriram os ipês. Caíram as flores. Amareleceram as folhas, que o vento levava em loucas revoadas pelos campos.  As cigarras enchiam as matas com sua forte sinfonia e sua vida evolava-se, aos poucos, em cada nota de seu canto. Nascimentos, mortes, transformações e os dias andando, andando.

Após três anos de casamento, numa noite bonita, Maluá encostou a cabeça no peito de Tainá-racan e apertou-a com ternura. No olhar de ambos, há muito, havia uma sombra. Nenhum deles tinha a coragem de falar. Uma palavra de mágoa, temiam, poderia quebrar o encanto de seu amor. A beleza da noite estremecia o coração sensível de Tainá-racan. Ela ajuntou a alma dos lábios e perguntou com voz trêmula, em sussurro:

-Estás triste, amado meu? Nem é preciso que respondas. Há tempo vejo uma sombra nos teus olhos.

-Sim, respondeu o valente guerreiro. Tu sabes que eu estou triste e tu também estás. A dor é a mesma.

-Onde está nosso filho que Cananxiué não quer mandar?

-Sim, onde está nosso filho?...

Maluá alisou com carinho o ventre da formosa esposa. "E o nosso filho não vem", murmurou. Dois pequeninos rios de lágrimas deslizaram pelas faces coradas de Tainá-racan. Um vento forte perpassou pela floresta. Uma nuvem escura cobriu a lua, que não mais tornava de prata as águas mansas do rio. Trovões reboaram ao longe. Maluá envolveu Tainá-racan nos braços e amou-a. "Nosso filho virá, sim. Cananxiué nos mandará".

Quando os ipês voltaram a florir, no ano seguinte, numa madrugada alegre, nasceu Uadi, o Arco-Íris. Era lindo, gordinho, tinha os olhos cor de noite estrelada como os da mãe e era forte como o pai. Mas, havia nele algo diferente, algo que espantou o pai, a mãe, a tribo inteira: Uadi tinha os cabelos dourados como as flores do ipê. Maluá recebeu o nascimento do filho como um presente de Cananxiué. Seu coração, contudo, estremeceu com a singularidade dele. Começou a espalhar pelo tribo a lenda de que o menino era filho de Cananxiué. O menino crescia cheio de encanto, alegria e de uma inteligência incomum, parecia um Payé. Fascinava a mãe, o pai, a aldeia, a tribo toda. Com rapidez incrível aprendeu o nome das coisas e dos bichos. Sabia cantar as baladas tristes e alegres que a mãe ensinava. Era a alegria e a festa da mãe, do pai, da tribo.

Um dia, Maluá, com outros guerreiros, foi chamado para a luta. Os olhos pretos de Tainá-racan encheram-se de lágrimas. O rostinho vivo de Uadi se ensombreceu. À despedida, seus bracinhos agarram-se ao pescoço do pai e ele falou: "Papai, vou-me embora para a noite, depois, chegarei à casa de Tainá-racan, a mãe, lá no céu". E seu dedinho róseo apontou o horizonte. O corpo de bronze do guerreiro se estremeceu. Seus lábios moveram-se, mas as palavras teimavam em não sair. Ele apertou, com força, o menino nos braços e, por fim, falou: "Que é isso, filhinho, tu não vais para lugar nenhum, nenhum deus te arrancará de mim. A tua casa é a casa de tua mãe, Tainá-racan, aqui na terra, e a de seu pai. Se for preciso, não partirei para a guerra. Ficarei contigo".

Nesse momento, Cananxuié, o senhor de todas as matas, de todos os animais, de todos os montes, de todos os valores, de todas as águas e de todas as flores, desceu do céu sob a forma de Andrerura, a arara vermelha, e gritou um grito forte: "Vim buscar meu filho!" Agarrou-o e levou-o pelos ares. Tainá-racan e Maluá caíram de joelhos. O guerreiro abriu os braços gritando: "O filho é nosso, sua casa é a de sua mãe, Tainá-racan, aqui na terra! Devolve meu filho, a Cananxiué! O grito de Maluá ecoou pela mata, ferindo de dor o silêncio. O peito do guerreiro palpitava de sofrimento como uma montanha ferida pelo terremoto. O velho chefe guerreiro aproximou-se dele, bateu-lhe no ombro e bradou: "Teus companheiros já partem. Maior que tua dor é tua honra de guerreiro e a glória de nossa tribo! Vai, meu filho, Cananxiué buscou o que é dele. Muitos outros filhos ele te dará. Tainá-racan é jovem. Tu és jovem. Vai, guerreiro, não deixa a dor matar sua coragem!"
Maluá partiu. Tainá-racan encostou a fronte na terra, onde pouco antes pisavam os pezinhos encantados de Uadi. Chorou. Chorou. Chorou três dias e três noites. Então, Cananxiué se apiedou dela. Baixou à terra e disse: "Das tuas lágrimas nascerá uma planta que se transformará numa árvore copada. Ela dará flores cheirosas que os veados, as capivaras e os lobos virão comer nas noites de luar. Depois, nascerão frutos. Dentro da casca verde, os frutos serão dourados como os cabelos de Uadi. Mas a semente será cheia de espinhos, como os espinhos da dor de teu coração de mãe. Seu aroma será tão tentador e inesquecível que aquele que provar do fruto e gostar, amá-lo-á para jamais o esquecer. Como também amará a terra que o produziu. Todos os anos, encherei, generosamente, sua copa de frutos, que os galhos se curvarão com a fartura. Ele se espalhará pelos campos, irá para a mesa dos pobres e dos ricos Quem estiver longe e não puder comê-lo sentirá uma saudade doida de seu aroma. Nenhum sabor o substituirá. Ele há de dourar todos os alimentos com que se misturar e, na mesa em que estiver, seu odor predominará sobre todos. Ele há de dourar também os licores, para a alegria da alma".

Tainá-racan ergue o olhar, aquele olhar onde brilhou a primeira estrela da consolação. E perguntou a Canaxiué:

-Como se chamará, Cananxiué, esse fruto, cujo coração são os espinhos de minha dor, cuja cor são os cabelos de ouro de Uadi e cujo aroma é inesquecível como o cheiro dessa mata, onde brinquei com meu filhinho?

-Chamar-se-á Tamauó, pequi, minha filha. Quero ver-te alegre de novo, pois te darei muitos filhos, fortes e sadios como Maluá. E teu marido voltará cheio de glória da batalha, pois muitos séculos se passarão até que nasça um guerreiro tão destemido e tão honrado! Ele comerá deste fruto e gostará dele por toda a vida!"

Tainá-racan sorriu. E o pequizeiro começou a brotar.

* O início da primavera nos Cerrados significa a volta das chuvas e, com elas, a transformação do bioma em uma mistura de jardim e pomar. Entre as centenas frutos que se espalham por seus campos e matas, um encanta mais que todos: o pequi. O pequizeiro é uma árvore do cerrado. Das chapadas nasce, cresce e frutifica, apesar da hostilidade da terra e dos homens.
É como as aves do céu, os peixes dos rios, como pastagens nativas como todos os frutos silvestres.
Não tem dono certo. Dono é quem os colheu, os caçou e pescou. ( "É tempo de pequi cada um cuida de si"- velho ditado sertanejo).
Por isso é que quando o pequi começa a soltar os frutos, os campos se povoam de mulheres, homens e crianças.
Os frutos sazonados caem durante a noite.
Um pequizeiro pode produzir até seis mil frutos, que vão amadurecendo paulatinamente e caindo...

 Existem outras versões desta mesma lenda, em outras tribos. Eu as postarei em breve.
Awyry!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

MULHER BÚFALO E CACHIMBO SAGRADO



Dois jovens guerreiros Sioux caçavam nas pradarias do Minessota. subriram uma colina, para ver onde a caça seria mais produtiva, e perderam o fôlego ao ver uma moça surgir diante deles em uma nuvem. Ela vestia branco, e tinha uma sacola feita de couro de búfalo em uma das mãos.  Tinha em seus cabelos uma pena de águia. Ela disse ao jovens: 
"Não tenham medo. Eu venho para trazer paz. Mas, me digam, por que vocês estão tão longe da aldeia?"

A beleza dela incendiou o coração do mais velho com pensamentos impuros, e ele se calou. O mais jovem então respondeu: "Estamos caçando. Nossa aldeia não tem comida." Ela então deu alguns pacotes para os jovens, e disse: "leve estes pacotes para os chefes das sete fogueiras Sioux. Diga-lhes para se reunirem em conselho hoje em volta da fogueira e que esperem por mim."
Ao ouvir isso, o mais velho descontrolou-se do seu desejo e falou-lhe da sua vontade de possuí-la ali mesmo, sob o sol. Quando tentou agarrá-la, ela o envolveu carinhosamente na pele de búfalo. Uma nuvem de fumaça envolveu o corpo do homem, uma lágrima correu nos olhos da jovem mulher, e quando o pó baixou, no lugar do guerreiro havia um esqueleto coberto de vermes. Então, Ela disse ao mais moço:
"O homem que enxerga primeiro a beleza exterior da mulher, é um cego, e nunca verá a beleza divina que ela têm. Mas o homem que olha primeiro para o Espírito e a sua verdade, este sim, verá o grande espírito que ela têm e se então ela quiser deitar-se com ele, compartilharão juntos um prazer mais pleno, e só então, sagrado. Você, quando me olhou, não ficou cego com a minha beleza, mas seu primeiro pensamento foi de tentar descobrir quem eu era. E eu te digo que você também terá o que deseja."
 O jovem criou coragem, engoliu seco e perguntou, finalmente, quem ela era.
" Eu sou aquela a quem seu povo chama de Mãe dos Mais Velhos, o Espírito da Verdade. Mas, como você pode ver, eu não sou tão velha assim. Sou a Grande Mãe, que vive dentro de cada mãe, a Moça que brinca em cada criança, sou a face de Wakan Tanka, de quem seu povo não se lembra mais. Eu estou aqui para ensinar coisas sagradas ao seu povo, coisas das quais eles se esqueceram. Você deve preparar a minha chegada."
O jovem correu como o vento, para transmitir a mensagem da Mulher Búfalo Branco aos chefes das sete fogueiras Sioux. Os chefes, após ouvir o jovem guerreiro, construíram uma tenda grande, onde todas as tribos pudessem se reunir.
Todas as tribos esperavam sentados, enquanto os chefes esperavam pela Mulher Búfalo na entrada da tenda. De súbito, um odor de ervas queimando encheu o ambiente, e eles a viram chegando montada em um búfalo branco. Ficaram atônitos, porque esperavam uma pessoa de mais idade, e não uma menina. Descalça, ela desceu do búfalo e entrou na tenda. Sem dizer uma palavra, ela andou em círculo em volta da fogueira que ardia no centro da tenda. A cada um de seus lentos passos era como um trovão caindo dentro de cada coração, uma prece a Mãe Terra. Ela contornou o fogo sete vezes.
Por fim, ela disse:
“Sete círculos em torno deste fogo, em reverência e silêncio. O fogo simboliza o amor que arde para sempre no coração de Wakan Tanka. É este fogo que aquece cada criatura no mundo. Vocês são como um único ser. Esta tenda é o corpo de vocês. O fogo que arde no centro dela e o amor de vocês.” Curvou-se, e tirou um graveto incandescente da fogueira. “eu estou aqui com o fogo do céu para reavivar a memória de vocês, daquilo que se foi, e prepará-los para os próximos tempos.” Devolveu o graveto ao fogo e pegou sua sacola.
“- Nesta sacola, trago um cachimbo para ajudá-los a recordarem os ensinamentos sagrados. Tratem-no sempre com respeito, pois ele é vivo. Levem-no sempre em sacolas das mais finas peles, enfeitadas pelas mãos mais reverentes. Ponham neste cachimbo as ervas que eu lhes mostrarei. Fumem-no com um sentimento de gratidão ao Grande Espírito, de cujo sopro vocês receberam a vida. Usem o fumo para representar seus pensamentos, suas orações e aspirações ao Grande Espírito.
Ela desatou as tiras de couro que amarravam a boca da sacola, e retirou o Chanupa com tamanha reverência que todos que estavam na tenda, sentiram os olhos cheios de lágrimas.
“Este cachimbo é sagrado, e cada tragada de fumo que vocês inalam pelo seu tubo, ajudará vocês a recordarem que cada sopro de vocês é sagrado. O fornilho do cachimbo é vermelho. Tem o formato circular. Para simbolizar a Roda Sagrada, o sagrado ciclo da vida, o dar e receber, , a dualidade, o macho e a fêmea, da inalação e da exalação pelo qual todas as coisas vivas ingressam na vida pelo poder do Grande Espírito, e dela saem.
A Mulher Búfalo Branco colocou um pouco de tabaco no fornilho do cachimbo dizendo: “ Este tabaco, simboliza o mundo das plantas, o musgo das pedras, as ervas, as folhas da relva que cobre a colina para que sua mãe não repouse nua ao sol. Vocês estão aqui para cuidar da terra. Suas vidas são acesas pelo mesmo fogo que arde no coração do Grande Espírito.” Acendeu um graveto no fogo, ergueu-o  e disse: “Da mesma forma que acendo esse graveto no grande fogo, assim todo ser humano é uma chama que faz parte do fogo eterno do amor do Grande Espírito. Quando vocês viverem em harmonia com o Grande Espírito, sua chama de amor será vivida sempre por aqueles ventos espirituais. Vocês serão tomados de amor pela própria razão da vida! Acenderão o fogo do amor em todos os que encontrarem. Conhecerão o propósito de sua travessia por esse mundo e saberão que o Grande Ser deu uma chama da vida a todos: não para guardarem sua pequenina chama somente para si, amando apenas aquilo que é necessário às suas vidas, mas sim para que pudessem dar o seu amor, e com o fogo desse amor trazer consciência para a terra.” Dizendo isto, ela segurou o graveto incandescente bem em cima do fornilho vermelho do cachimbo. Encostou a chama bem no centro do cachimbo, aspirando suavemente pelo tubo até o tabaco incandescer.
“Assim como o tabaco queima neste cachimbo de terra que representa as plantas, assim também esta criatura que vocês vêem entalhada na fornilha do cachimbo representa as criaturas que compartilham com vocês esse mundo sagrado. As doze penas que pendem o tubo do cachimbo representam os seres alados com os quais vocês compartilham o grande círculo do céu.” Em seguida ela passou o cachimbo ao chefe do conselho dizendo:  “Tomem este cachimbo. Agradeçam ao Grande Espírito, e passem o cachimbo aos outros do nosso círculo. Que seus pensamentos sejam elevados ao Grande Espírito que vem agora mexer com suas memórias, abrindo os olhos de seus narradores. Cada amanhecer que nasce vermelho no céu do leste, como o fornilho vermelho deste cachimbo, é o nascimento de um novo dia, de um dia sagrado. Lembrem-se sempre de tratar cada criatura como um ser sagrado: as pessoas que vivem além das montanhas, os pássaros, os peixes e os outros animais, todos eles são irmãs e irmãos de vocês. Todos constituem partes sagradas do corpo do Grande Espírito. Tudo é Sagrado.”

Neste momento, o cachimbo começa a ser passado de mão em mão. Depois que todos que estavam na cabana deram uma baforada, Mulher Búfalo Branco levantou com reverência o cachimbo para que todos vissem, e disse: “ Levem sempre o Chanupa com vocês. Trate-o como um objeto sagrado. Honrem todas as criaturas e vivam suas vidas em harmonia com o Caminho Sagrado do Equilíbrio de que fala cada árvore, cada flor e cada novo dia. Haverá muitas estações nas quais o coração de vocês se sentirá claro e puro como uma nascente nas montanhas, e vocês conhecerão a paz e a alegria do Grande Espírito. Mas, se vocês sentirem que se afastaram da trilha do Caminho Sagrado, se seus corações passarem a pesar dentro de vocês, não percam tempo em arrependimento. Ensinar-lhes-ei uma cerimônia," disse ela acendendo o cachimbo mais uma vez no fogo sagrado, "uma cerimônia que cada um de vocês pode fazer em companhia de outros, a sós em suas tendas, ou lá fora, na pradaria. Parem suas atividades. Procurem uma pedra sobre a qual sentar. Rogando orientação do Grande Espírito. Acendam o cachimbo e deixem que o fornilho vermelho lhes o caminho da vida, o trilho vermelho do sol. Depois de ter aspirado seu fumo em honra do Grande Espírito, em honra da Mãe Terra, em honra dos animais e das pessoas que são fiéis à realidade, depois de ter dado graças as quatro direções, então aspirem uma vez mais para pedirem orientação aos grandes seres alados do mundo dos espíritos. Peça-os para ajudá-los a ver o melhor procedimento a seguir. Peçam para que eles ajudem a vocês fazerem a escolha mais sábia e a reconhecer os passos que devem tomar na trilha que seu EU mais profundo escolher para vocês. Isso permitirá que o fogo que arde dentro de vocês fale em termos claros, sem interrupções. Peça que os seres espirituais que os cercam, entrem em sua vida. Diga-lhes que desejam ajudá-los e ao Grande Espírito no seu trabalho, e perguntem-lhes como fazer isto. Ao ajudarem o Grande Espírito, vocês se ajudarão. Os seres humanos não são inteiramente felizes nem saudáveis senão quando servem aos propósitos para os quais o Grande Espírito os criou.” Novamente ela entregou o cachimbo, para que fosse passado de mão em mão. Durante muito tempo, Mulher Búfalo Branco permaneceu em silêncio, mesmo após ser completado o círculo de baforada no cachimbo. Quando falou novamente, comparou seus ensinamentos a uma árvore; uma árvore que iria florescer à medida que tomavam a si essas coisas, plantando-as no coração de cada um e aplicando-as no dia a dia.
“Durante longo tempo, vocês viverão sob a sombra sagrada da Árvore da Compreensão que estou plantando nas suas consciências. E, nas gerações vindouras, seu povo estará unido novamente no Sagrado Círculo da Vida. Infelizmente, essa árvore será derrubada depois de algumas gerações. A árvore parecerá morrer. A Roda Sagrada murchará até ser esquecida. Alguns poucos manterão a luz da verdade ardendo nos seus corações, mas a luz será fraca e, mesmo neles, passará a ser uma brasa pequena e imperceptível.” Guardando o cachimbo na sacola, ela continuou: “Mas a brasinha permanecerá. Em silêncio, continuará. Mesmo quando vocês tiverem suas terras invadidas, vendidas e roubadas. Essa brasa ainda manterá sua luz acesa, e saibam meu povo que um grande fogo pode sair de uma única brasa! Quando a tempestade passar, essa brasa acenderá um alvorecer mais forte do que qualquer outra alvorada. Uma nova árvore crescerá, mais gloriosa do que esta que agora deixo com vocês. Com o novo alvorecer, eu voltarei e viverei com vocês. Debaixo da sombra dessa árvore, estarão reunidos não somente as tribos vermelhas, mas as tribos brancas, as tribos negras e as tribos amarelas, vindo de todas as direções. Em harmonia, as quatro raças viverão sob os ramos da nova árvore. Tudo que foi quebrado será refeito por inteiro. A Roda Sagrada será consertada. A comida será farta e os espíritos de todas as criaturas alegrar-se-ão na harmonia de uma nova ordem, perfeita. O Grande Espírito, estará atuando dentro das raças, vivendo, respirando, criando através dos povos da Terra. Após muitas guerras, a paz virá as nações. Grandes mudanças estão a caminho com o nascimento do Búfalo Branco."
Despediu-se dizendo que voltaria um dia, então transformou-se num Búfalo Branco, e sumiu envolta nas nuvens e nunca mais foi vista.
Em 1994, em Janesville, no estado de Wisconsin, nos EUA, nasceu um búfalo branco de dois búfalos negros. “Não se trata de um búfalo albino,”- dizem os cientistas – “é um búfalo branco!” Torna-se mais próximo o cumprimento da profecia sagrada de que irá surgir uma nova idade de unificação e espiritualidade global, enchendo-nos de uma esperança maior para o novo milênio.
Ahow!!